FUMAÇA MÁGICA
Arte e Prazer para os bons momentos da sua vida
| 134 | ALIANÇA | 09/08/04 |
| 133 | NOVA ERA | 30/07/04 |
| 132 | PRESSENTIMENTO | 20/07/04 |
| 131 | RESTAURANTE DE BERÉ | 09/07/04 |
| 130 | ORIGEM CERTIFICADA | 28/06/04 |
| 129 | RECEITUÁRIO | 15/06/04 |
| 128 | PUROS E DIFERENTES | 02/06/04 |
| 127 | O PURO E A PENA | 24/05/04 |
| 126 | UNIDOS PARA SEMPRE | 11/05/04 |
| 125 | GUERREIRO DOS CHARUTOS | 03/05/04 |
| 124 | A MULHER E O CHARUTO | 22/04/04 |
| 123 | CHEIRO A HOMEM | 12/04/04 |
| 122 | PUROS AMIGOS | 31/03/04 |
| 121 | LINGUAGEM | 18/03/04 |
| 120 | ANOS & AMANTES | 09/03/04 |
| 119 | ITAPEMA | 27/02/04 |
| 118 | PUROS MASCADOS | 16/02/04 |
| 117 | SINFÔNICA BELEZA | 30/01/04 |
| 116 | MERCADOR DE PUROS | 21/01/04 |
| 115 | HOMEM COMUM | 09/01/04 |
| 114 | A (IM)PERFEIÇÃO | 30/12/03 |
| 113 | ÁRVORE DE NATAL | 22/12/03 |
| 112 | SOU DO PC | 17/12/03 |
| 111 | SAUDADES | 08/12/03 |
| 110 | SÁBADO COMPLETO | 29/11/03 |
| 109 | ÓCIO PRAZEROSO | 17/11/03 |
| 108 | IN MEMORIAM | 04/11/03 |
| 107 | CARNAVAL E CHARUTOS | 28/10/03 |
| 106 | EPÍTETOS |
15/10/03 |
| 105 | CHARUTO AO LUAR | 06/10/03 |
| 104 | AS PIRÂMIDES | 29/09/03 |
| 103 | AMAR E FUMAR | 17/09/03 |
| 102 | NOVA MUSA | 11/09/03 |
| 101 | PRIVILEGIADOS | 06/09/03 |
134.
ALIANÇA
A
política da província-de-são-gonçalo-dos-campos-da-bahia não é,
habitualmente, tema de minhas crônicas. Afinal, sendo algo de foco tão
restrito, que interessaria a meus leitores deste Brasil afora, falar de coisas
da minha pólis?
Mas,
neste ano eleitoral está havendo – e me perdoem os que me lêem e meus
charutos – um caso digno de registro, inacreditável.
Nossa
pequena cidade vive, há uns 30 anos, sob a dicotomia dominial de dois senhores,
inimigos ferrenhos. Não se falam. Detestam-se mais do que os antitabagistas de
carteirinha detestam os fumadores de charutos. O desprezo recíproco sempre foi
enriquecido por ofensas pessoais. Daquelas de atingir as genitoras.
Neste
tempo todo, quando não foram prefeitos, elegeram-nos, sempre na tentativa de
continuarem suas dominações. Alguns dos prepostos eleitos aceitaram o
“cabresto”. Outros, nem tanto. Semearam pois, inimigos políticos, os quais,
sem alternativas, migravam para as hostes adversárias, num vai-e-vem que, no
fundo, convinha aos dois senhores, por manterem o status quo.
Um
de tais senhores apoiou, nas últimas eleições, um irmão seu o qual,
assumindo o governo municipal, se insurgiu, evadindo-se das hostes fraternas e não
migrando para o adversário histórico, vem tentando abrir seu “espaço próprio”.
Pois
creiam. Os dois “detentores do poder” (leia-se votos) aliaram-se na
tentativa de impedir da re-eleição daquele que tenta renovar a política
municipal. O hilário de tudo é que os novos aliados, dos quais um é candidato
a prefeito, continuam sem falar um com o outro. Comunicam-se por serviçais
emissários.
E
neste imbróglio, desfrutando a paz do meu charuto, constato o quanto o desejo
de não se abrir mão do poder é capaz de juntar, num mesmo saco, gatos e
ratos, raposas e galinhas, pondo irmãos de sangue em campos opostos.
A funeral tristeza que me açoita me faz crer, por entre a fumaça do meu charuto, que o povo de minha cidade não se deixará iludir pela incompreensível aliança.
133. NOVA ERA
Essa
coisa da comunicação meio hipnótica do “em verdade, em verdade, vos
digo” me faz refletir se, em verdade, aquilo acontecera ou fora um sonho.
Postada ao balcão do bar, desfrutando um puro, a Vênus em noite de
musa, virara-se para expelir a azulada nuvem de fumaça. Justo quando eu, por
ali, passava.
Constrangida
por me haver incensado, sem o saber, com meu predileto aroma, desfizera-se em
desculpas socialmente compreensíveis. Deixei-a a vontade em suas
justificativas e fiz eterno aquele intervalo de tempo, tão breve quanto um
piscar de olhos, no desvanecer-se da névoa enfumaçada.
Era
uma noite de encantos. Charutos em todas as mãos e em todas as bocas. Homens
e mulheres desfrutavam o invulgar prazer de fumar puros. Como pano de
fundo, em verdade vos digo, música caribenha incitava o relaxamento corporal.
Descompromissos totais. Gente bonita fazendo a festa mais bonita ainda.
A
música e o charuto eram os elos condutores que faziam todos se sentirem a
vontade como se fossem velhos conhecidos.
Em
verdade vos digo nada haver visto igual, em matéria de comemoração
charuteira. Tratava-se da apresentação dos charutos Aquarius ao distinto público.
Alegria que anunciava uma nova era para a Menendez & Amerino.
Colunáveis, amigos da casa, um público adulto que sabe das boas coisas da vida. Badalações. Azarações. Gente encantada.
|
Um novo tempo. Uma nova era. Aquarius.
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132.
PRESSENTIMENTO
Pressinto
que em algum lugar do passado esculpi, em frondosa árvore à beira do
caminho-vida, as presentes palavras. Como não recordo onde, nem quando,
inebriado pelo meu Alonso Menendez Robusto, volto a faze-lo. Desta feita
deitando as palavras sobre a celulose que foi árvore e, depois, se fez papel.
Árvores
frondosas, as tenho. Muitas. Foram plantadas ao longo da existência. São meus
amigos conquistados graças à magia e ao encanto da arte e do prazer de fumar puros.
Meus leitores são também árvores em cujas sombras amenas, encontro refrigério
e entusiasmo para prosseguir na jornada.
Não
importa que Você, árvore amiga, desconheça esse passageiro da vida. As árvores
não têm tal obrigação. Sei onde encontra-lo e, desfrutando do prazer de meus
puros, com regular freqüência vou me abrigar na sua sombra-leitura de
minhas enfumaçadas crônicas.
Que
bom seria se pudesse eu acionar encantos e desvendar mistérios.
Encantaria
Você com meus escritos e com meus charutos, sem rodeios ou meias-palavras, lhe
desvendaria as místicas nuances que transformam um comum mortal, num imortal
comum.
131.
RESTAURANTE DE BERÉ
Aqui
na província-de-são-gonçalo-dos-campos-da-bahia, come-se relativamente
bem, mas fuma-se melhor ainda. Estou no restaurante de Beré. Senhora de
segredos culinários baianos, Beré, na sua casa de pastos que acumula funções
de moradia, tem tradição de bem servir há mais de vinte anos.
A
limpeza que se percebe desde a entrada, mesclada à extrema simplicidade das
mesas de ferro, dos vasos com plantas por todos os cantos, obscurece a mistura
de diferentes pisos, cores e revestimentos das paredes que formam o ambiente.
Das toalhas verdosas sobre avermelhadas mesas. Tudo está nos conformes
interioranos. Pratos (fundos) emborcados, escondem os talheres, protegendo-os.
Quadros de gosto um tanto quanto duvidoso pendem nas paredes. Colocados ao acaso
disputam espaço com os amarelo-claros e rosa-apessegados das paredes. Não vale
a pena aprecia-los.
Vale,
isso sim, perguntar: O que temos hoje, Beré?
São
mil coisas diferentes. Não irei denunciá-las para não lhe dar água na boca.
Resposta
recebida, a dúvida. Compartilhada com os diversos companheiros que se
encontravam comigo. Cheiros gostosos e sedutores recendem lá das bandas da
cozinha misturando-se ao aroma do Dona Flor Pirâmide que estou fumando.
Depois
de negociados, entre todos, os
anunciados prazeres gastronômicos, chega a comida. Resplandecente. Abundante.
Mil complementos, dispensáveis, cercam os pratos encomendados.
O
D. Flor Pirâmide, depositado no cinzeiro,
em ritual de fim de vida, deixa evolar suas fumaças estertoras. E eu,
satisfeito, em meio a um turbilhão de gostos e aromas, pronto para acender meu
digestivo D. Flor Petit Corona, lembro-me de meus leitores, redigindo mais uma
crônica.
130.
ORIGEM CERTIFICADA
A
crônica de
hoje é um tanto quanto hídrica e, por isso, espero não fique “aguada”.
Recomendado que fui, por questões hepático-pancreáticas, de não buscar
inspirações vinícius-etílico-de-morais, lá me vou com meu Dona
Flor Double Corona, enfrentar o desafio de contornar mais um casamento
desfeito. Assunto em que fui mestre.
O
diálogo álcool-tabaco acabou. A “casa” ficou meio vazia. Tento preencher
o vácuo da companhia que se foi
com litros de água de coco. E, naturalmente, com gelo para, quando nada,
evocar o tilintar apreciado pelos bons bebedores. Assim ao menos, não privo
meus ouvidos do prazer da cristalina sonoridade. Então, como não falta
(quase) nada o jeito é me adaptar aos novos tempos. Como, dia a dia, o faço
na vida.
Sorte
que meu charuto, não se dando conta da ausência, se deixa evolar como se
nada tivesse acontecido. O que me conforta e anima para voltar a falar dos
bons puros baianos.
No
mundo, tudo o que é bom nasce em chamadas zonas demarcadas e tem certificado
de origem. Os cultivares são protegidos. Cognac, champanhe, vinho do porto, são
exemplos marcantes e clássicos. No Brasil a legislação a respeito é
bastante nova. Data de 1997. E até agora, pelo quanto eu saiba, apenas vinhos
gaúchos de Bento Gonçalves, conseguiram o reconhecimento de origem do
chamado “Vale dos Vinhedos”. Cafeicultores de Minas Gerais trabalham também
no sentido de obterem tal certificado.
Na
Bahia, a grande zona geográfica, na qual se situa São Gonçalo dos Campos,
única região do mundo onde se produzem os fumos Mata Fina e Mata Norte, está
a merecer tal reconhecimento. Nossos melhores charutos, os Alonso Menendez e
Dona Flor, têm em si mesmos, de forma nata, tal certificado de origem.
129.
RECEITUÁRIO
Com o passar do tempo, à medida que desenvolvemos o senso da mortalidade – típico dos idosos – a vida nos ensina a abdicar de umas quantas coisas. Agitação urbana, álcool, gorduras, tabaco, sedentarismo, etc. se unem para formar um complô conspirativo adverso às inspirações que eles motivam.
Somos, por força dos anos e quando, é claro, conseguimos desenvolver uma consciência crítica, naturalmente induzidos a fazer eleições, preferenciando uns prazeres, em detrimento de outros.
Algumas
pessoas há até, quais monges tibetanos, que agem de forma radical. Abdicam in
totum, de tudo. Os prazeres da carne, os etílicos, os do ócio, os fumígeros
et caterva, deixam de fazer parte dos seus cotidianos. Naturalistas –
em busca da eterna juventude – se transformam em verdadeiros atletas,
querendo prolongar ao máximo suas vidas.
Eu, gaúcho sexagenário e réu confesso dos veniais pecados que edulcoram a vida, tenho procedido também minhas eleições e abdicações.
Menos mal que as mesmas tendo nascido de dentro para fora, não me havendo sido impostas por terceiros, não me foram traumáticas. Ao contrário. As ausências decididas passaram a se revestir de um caráter especial: a vitória da vontade própria contra dependências avassaladoras.
De
grande amante da noite, passei a dormir cedo. De emérito bebedor de
destilados, passei a me satisfazer com uma taça de vinho. As carnes
vermelhas, sem as quais seria incapaz de viver um dia sequer, passaram a ser
ocasionais desfrutes gastronômicos. Nunca fora obeso. De doces nunca gostara.
Duas preocupações a menos. Da agitação urbana, me desvencilhei há mais de
uma década, elegendo uma cidade interiorana.
Tudo se transformou de forma natural, sem autoflagelos, sem sentimentos de culpa, sem saudades. Um reaprendizado do viver.
De uma coisa somente não abri mão, nem parcialmente. Dos meus muitos charutos diários. O primeiro, sempre, às 6:30 horas do dia. Nem que soem trovões em tons longos de guerra, nem que a vaca tussa, nem que o mundo caia sobre mim, quero abandona-los. E, também, não terá essa de ficar correndo pelas ruas, com tênis da moda, cronometrando batidas cardíacas, inspirações e expirações.
Minha
freqüência cordial independe da velocidade do meu corpo. Acelero-a ou
retardo-a no rememorar amores. E minhas “inspirações” brotam da fumaça
mágica dos meus charutos. Como acontece agora. Quando acabo de lhe passar meu
receituário para uma longa e proveitosa vida.
128.
PUROS E DIFERENTES
Andar por corredores e setores de uma fábrica de charutos feitos à mão é, sempre, uma experiência inesquecível. Faço isso diariamente, um tanto desatento. A passos largos, parto do setor administrativo, em direção a uma determinada área fabril, para tratar de certo assunto, e as operárias, na sua faina, passam por mim como paisagens passam pela janela de um trem veloz.
Vezes
há, como se lenha faltasse à fornalha, quando paro em meio ao caminho para
assistir ao nascimento de mais um puro: o compasso das morenas mãos
habilidosas parindo e trazendo ao mundo mais um bom charuto brasileiro.
É
incrível como aquelas folhas secas se transformam, em piscar de olhos, numa
regalia que irá correr mundo. Seu destino nasce traçado. Basta superar as
etapas subseqüentes que controlam a qualidade, para receber o anel que lhe
batiza e lhe confere berço.
Nome
e berço, dois distintos fatores de algumas das boas marcas que o Brasil
produz. Entre elas os Alonso Menendez e os Dona Flor, charutos com um passado
e que têm histórias a contar. Não nasceram filhos da aventura. São
descendentes dos laços do amor e da tradição. Que não (re) inventam estórias,
nem folclores. Que são o que são. Autênticos puros da nossa melhor
tradição charuteira. Representam a técnica cubana pelas mãos de
brasileiros, mas que não pretendem, nem querem, ser mais ou menos saborosos
que outras afamadas regalias mundiais. São apenas, e tão somente, puros e
diferentes. E isso eu sempre constato, nas minhas andanças pela fábrica, ao
congelar determinada imagem do processo.
127.
O PURO E A PENA
Depois
de um árduo dia de trabalho lá na fábrica, às voltas com equações de
custeio, noite plena, venho para a varanda do hotelzinho aqui da cidade. Chegar
em casa, esbaforido, com a garganta seca, e ávido para fumar em paz, meu puro,
não dá.
Ouço
o tim-tim do gelo mesclado ao borbulhar do generoso scotch. Os garçons
daqui são bondosos. Acrescem, ao tilintar e ao borbulhar, o sempre reclamado
“choro” dos bebedores de estirpe.
Um
aspirar da brisa – quase um suspiro – me acode. Preparo-me, só, amigos ali
ao lado sempre a jogar cartas, para mais um especial momento a três.
O
primeiro gole satura as papilas e o palato, escorrendo devagarzinho garganta
adentro. Boca e narinas reclamam a presença do puro.
Divido-me
entre dois deles que trouxe comigo. Um Alonso Menendez #10 Claro e um Dona Flor
Double Corona Mata Fina. Prazeres de distintas durações. Olho o relógio.
Tendo tempo de sobra, dúvida desfeita.
Corto
o bico do majestoso Double Corona não sem antes, pedir a segunda dose. A
primeira, pela ansiedade da jornada, esvaira-se num abrir e fechar de olhos.
Agora, fogo no puro. A azulada chama do fósforo contrasta com o marrom
quase preto do meu charuto e com o amarelo-alaranjado da ponta que incandesce,
ao sopra-la. Mesclam-se os matizes cromáticos. Meu puro começa a se
transformar na razão para a qual foi feito. Morrer, queimando aos poucos, para
dar prazer.
A
primeira baforada tem nuances iguais às do primeiro gole. Olfato e gosto, ébrios
de satisfação, agradecem mais este momento de paz. O tato – leia-se as mãos
– também ocupados, empunham cada qual, o puro e a pena.
126.
UNIDOS PARA SEMPRE
Ao longo do tempo passam por nós pessoas, hábitos, alegrias, tristezas, mil coisas. E por passarem, são simplesmente passageiras desta barca chamada vida. Outras há, amores à primeira vista ou duramente conquistados – não importa – que quando chegam, chegam para ficar. Estabelece-se, entre nós e elas, um sólido conluio e uma feliz coexistência que resiste e a tudo e a todos. Resiste à própria fraqueza da natureza humana. Sejam as tentações mundanas, seja o próprio bom senso, sejam os conselhos médicos.
Com meus charutos foi assim.
Ao nos conhecermos, em meus tempos de cabelos fartos, de logo entendemos que nossa relação não seria passageira. Mas não foi, confesso, amor de primeiro instante.
Vindos de mundos diversos, um bom tempo levamos para nos identificarmos. Afinal, mãos, olfato, boca, olhos tiveram que se acostumar a novos tatos, outros gostos e formas, até então, inusitadas. A invasão territorial de minhas sensações foi gradativa. Assumindo sempre mais espaço no dia a dia, por força do prazer e do meu próprio trabalho, os charutos invadiram, sem cerimônia, minha privacidade.
Comprazo-me em deixar-me ficar só, a um canto, confabulando com meu puro. E o faço religiosamente, com a devoção de um culto, todos os dias. É o inefável momento do por em ordem as emoções da casa. De pensar nos feitos e desfeitos da jornada e – por que não? – do pensar em nada. Um repouso. Um pouso para esvaziar a caixa preta dos registros do vôo da vida. E, com a mágica fumaça do puro amigo, deletar arquivos desnecessários, apagar ressentimentos, reativar alegrias, firmar propósitos, perdoar-me. Reencontrar-me no reencontro com meu charuto. E que assim seja.
Unidos para sempre. Amém.125.
GUERREIRO DOS CHARUTOS
Dia
desses, meu charuto me indagou donde venho. Tinha-me por baiano por viver na Boa
Terra há quase quarenta anos.
Tendo lhe dito haver nascido no Rio Grande do Sul, o puro amigo, curioso,
quis saber-me se nobre ou plebeu.
Confidenciei-lhe fatos
trazidos pelas bocas dos mais velhos. Bocas que já se calaram há muito, mas
cujos falares, misturados à névoa do meu charuto, ainda ecoam na solidão da
sala do meu recolhimento.
A
guerra, o gado, o peixe e o desejo de dias melhores explicam a história dos
meus e, por extensão, a minha.
Meus avós paternos, de
prosaico nome familiar Carvalho, de Trás-os-Montes, onde habitava a riqueza da
pobreza portuguesa, vieram para o Brasil nos anos de mil e oitocentos e segundo
império. O velho era artesão nas coisas do couro, correeiro como se dizia à
época, e buscou inicialmente o interior paulista, aonde veio a nascer meu pai.
Em começos do século passado partiu, com armas e bagagens, para o Rio Grande
do Sul onde era farta a oferta de matéria prima para o seu ofício. Fixou-se lá
pelas bandas de Pelotas onde havia grandes charqueadas e portanto era abundante
o couro. Pelo prisma paterno pois, se vê que um pouco de minha origem está no
gado e na aspiração de melhores dias.
Do
lado materno meu tataravô era baiano e plebeu. Tanto que foi “convocado”
para combater na Guerra do Paraguai. Teve a sorte dela sair com vida. De lá
retornando, desembarcou em costas catarinenses. Começou vida nova nos lados
onde hoje se situa Garopaba.
Não
sei se deixou amores e parentes na Bahia. Esqueceu os seus e por eles, por
certo, foi dado por morto. À época eram abundantes as baleias e livre a pesca.
Dedicou-se ao mar, constituiu família e legou a profissão a seus filhos e aos
filhos dos seus filhos.
Minha
avó, neta dele, me contava que, quando menina, ficava no promontório elevado
à borda da enseada a qual chamavam de “Vigia” e lá, enquanto brincava,
vigiava a chegada das baleias, correndo morro abaixo para ir avisar a chegada
das mesmas, ao pessoal da pesca. Teve uma única filha, em Garopaba, nos anos
vinte do século que já se foi, minha mãe. O Bittencourt materno que me
chegou, proveio de meu avô, um catarinense com patronímico dos franceses da
pequena colônia destes, existente na terra dos “barrigas-verdes”.
Os catarinenses pescadores
costumavam migrar para a cidade de Rio Grande, onde “deitavam suas redes” na
então, abundante pesca de tainhas. Meus avós para lá foram. Vê-se pois que
pelo lado materno um pouco de minha origem está na guerra e na pesca.
Tudo
pronto, portanto, para o nascimento deste gaúcho ocasional.
O
qual, seguindo a tradição, como herdeiro das vocações de seus avós,
aspirando melhores dias, acabou na Bahia, trabalhando que nem um boi, e se
transformando num guerreiro dos charutos e num escriba-pescador de ilusões.
124.
A MULHER E O CHARUTO
Conheço
algumas mulheres que fumam charutos. E que o fazem com charme e perfeição.
A
minha, infelizmente, não. Abstêmia e antitabagista por excelência, tem em mim
seu alter-ego. Fumo por nós dois. E o faço escancaradamente, malgrado
eventuais admoestações quanto à minha idade, etc e tal. Classificar como
eventuais as reclamações da distinta é complacência minha.
Rodeado
que sou, familiarmente falando, por não fumantes e não bebedores (esses nem
tanto), numa ilha de fumo me transformei, em meio a um mar de incompreensíveis
abstinências.
Do
alto do meu Robusto, minha marca comportamental registrada, dardejo os pobres
mortais que me rodeiam, ignara plebe que desconhece as boas coisas da vida. Vive
sem viver. Vegeta?
E
quando então, me deparo com uma mulher fumando charutos, vejo que nem tudo está
perdido.
O
masculino vira feminino, quando de lábios rubros de batom, boca entreaberta, a
mágica fumaça do puro se evola espiralada. Tênues nuances azuladas
tentam esconder, em vão, a beleza da face e o encanto do gesto.
Aos
homens, os masculinos puros.
123.
CHEIRO A HOMEM
Rotina
quase consagrada, aos domingos dedico os momentos que antecedem o almoço para,
com uma taça de vinho e um puro, deliciar-me na paz do lar. Ausente de
preocupações, encareço gentilmente à mulher que não me interrompa com seus
cuidados e dominicais comentários.
É
uma das santas horas do pensar nos meus charutos e falar deles.
Um
dos meus guris, como quase sempre acontece, indaga o que estou fazendo. Com uma
folha de papel e um lápis me imita, escrevendo. Garatujas inteligíveis apenas
por quem como ele, que tenha cinco anos ou, como eu, um pai afeito a hieróglifos
infantis. Ele está aprendendo a viver. No futuro, por certo, guardará destes
momentos, a melhor das lembranças.
A
mulher, passando ao largo, elogia o aroma do meu puro. Ela, embora não
fume, sempre acerta em cheio, com sua apurada sensibilidade olfativa, quando o
charuto está de fato excepcional.
Já
me vi flagrado por ela, algumas vezes, impondo restrições ao sabor da fumaça
do meu charuto, e me questionando se o mesmo estaria bom de fato. É quando me
dou conta que ela tinha razão. Azar do puro. Sorte minha.Troco-o por
outro.
A
propósito, este negócio de mulher versus charuto tem nuances especiais.
Há
aquelas que os amam – minoria estatisticamente ínfima -; há as que os
toleram – uma minoria relativa – e há as que os odeiam – a expressiva
maioria.
E
nós, os homens que não vivemos sem elas e sem os charutos, somos obrigados a
navegar neste oceano de incompreensões. As mulheres com as quais convivi neste
quarto de jornada secular em que fumo puros, todas não fumantes, sempre
respeitaram meu companheiro como parte integrante da minha vida, e sempre
aprenderam a admirar meu hábito. Nunca enfrentei problemas do tipo “ou ela ou
o charuto” pois sempre soube distinguir que uma e outro têm seus momentos
certos. Os
quais, a depender do caso, não necessitam ser coincidentes. Aliás, este negócio
de estar com ela ou com ele ao mesmo tempo, me parece meio complicado. Para
falar a verdade, no fundo, no fundo, quanto estou com ele não quero saber dela.
E o bom é que ela sabe disto. E não me aporrinha com ciúmes ou restrições.
Outro
dia, a um amigo que confessara ser obrigado fumar as escondidas de sua noiva,
aconselhei deixa-la enquanto era tempo. Caso contrário, casando-se, teria que
viver, com os charutos, um amor segundo e oculto. O que convenhamos, é quase
impossível.
E
mais, que não me venham os apólogos das contemporizações, com soluções
mirabolantes do tipo goma de mascar e fragrâncias que dissipem – ou disfarcem
– o aroma do bom charuto com o qual nos impregnamos ao fuma-los.
122.
PUROS AMIGOS
Trabalho
com charutos, respiro charutos e escrevo sobre eles. Desta tríplice convivência
mantemos uma intimidade de nuances quase irreveláveis.
Sendo
o meu melhor amigo, na constância, se converteu num confidente, escudeiro,
conselheiro e fonte de inspiração. Ora, nos momentos em que isolo, ele fala
comigo. Ora, nos momentos de atividade, ele me acompanha silencioso. E, neste último
caso, nunca reclama quando o esqueço depositado num cinzeiro.
Cinzeiro
é força de expressão. Quase sempre o deixo à beira de uma mesa ou de um balcão,
no peitoril de uma janela, ou em qualquer outro lugar plano que encontre pela
frente.
Imerso
nas preocupações do dia a dia, perco a noção donde o deixei. Mas, as
saudades chegam rápidas. Parto em busca dos habituais e inusitados lugares onde
o esqueço. E, a depender de como ele “estava”, não descanso enquanto não
o reencontro.
Via
de regra, já está “calado”. Apagara-se, tristemente, pelo fato de o haver
esquecido.
Acolho-o
com o carinho de amigos que se encontram, dispo-o das cinzas mortas e, num sopro
de vida, o reacendo para voltarmos a “conversar”.
Você
por certo, que deve ter amigos que não vê há muito tempo, sabe dos prazeres
do reencontro. Pois saiba que seus charutos, se bem convividos, também
proporcionam tais satisfações.
O
calor do abraço, o apertar das mãos, o olhar nos olhos, a troca de emoções e
sensações e, o que é melhor, a identificação plena.
121.
LINGUAGEM
Certo dia, cair de tarde,
como de praxe fui para o salão de jogos da Pousada do Centenário. À época eu
ainda apreciava uísque. Pelo telefone interno, acionei o pessoal do bar, meus
velhos conhecidos e sabedores de minha preferência. O charuto fumegava enquanto
o telefone tilintava.
Pronto!
Atenderam do outro lado.
Oi
filho! Quero que Você traga minha dose etílica vespertina.
Oh
seu Hugo, lastimou o
atendente, completando, isso
não temos.
Que
pena lhe disse, traga, então, uma dose do meu uísque.
Foi
quando me dei conta do quanto a última Flor do Lácio, com suas
sutilezas e riquezas, nos prega peças. O que é uma pena, posto que isso
costuma impor limitações, tanto ao falante, quanto ao escriba.
E
com meu charuto ao lado, fico me indagando de quantas vezes em minhas crônicas,
que de per si não são tão claras, posto serem enfumaçadas, o que bem quis
dizer, possa ter sido mal interpretado. Ainda mais eu, que me comprazo, falando
de charutos, em brincar com as palavras, deixando nas entrelinhas, muitas vezes,
(im)pertinentes insinuações.
Por
isso hoje, serei tão claro quanto um Alonso Menendez Claro. O que já complicará
nosso diálogo posto que as capas, ditas claras, não costumam ser assim tão
claras.
Os
iniciados na arte e no prazer de fumar e conhecedores da “linguagem
charuteira” , todos sem exceção, já foram vítimas de falsas leituras do
seu comportamento e da sua preferência. Por linguagem se entenda não só as
palavras. Fazem parte dela os rituais do apalpar, do ver, do levar à boca, do
aspirar...
E
quantos e quantos “garçons da vida”, amigos nossos, não entendem aquilo
que possa ser a dose etílica vespertina. E vêm com interpretações e
insinuações totalmente fora do contexto.
120.
ANOS & AMANTES
Brincado
de fazer contas, somei. E me assustei. Não foram os charutos já fumados em
minha vida, majestosa cifra, mas ainda distante de figurar no Guiness.
Simplesmente
somei a idade de meus filhos. E o caro leitor de minhas enfumaçadas crônicas,
há de se indagar sobre a razão de minha surpresa, pois volta e meia, falo de
meus dois pequenos infantes, inspiradores dos meus falares.
Que
número pois, é esse, tão assustador?
Deixe-me
antes acender meu puro. Que como quase sempre é um Robusto. Hoje um Dona
Flor. Ele me dará o tempo exato para lhe dizer o que quero.
Havendo
tido o privilégio de ter sido pai aos 20, aos 30, aos 40 e aos 60 anos, cheguei
aos 10 filhos. Idades variando, hoje, dos 44 aos 03 anos. A soma de suas idades
chega, agora, a 290. Aí me dei conta de como e quanto, nossos filhos são
agentes multiplicadores de nossas vidas. Afinal tenho, agora, 290 anos de convivência
paternal, a qual de ano em ano, aumenta de dez em dez.
Você
poderá imaginar o quanto aprendi com meus “meninos”? Duzentos e noventa se
diz muito rápido. Mas, medite. São quase três séculos de distintas vivências,
das quais tenho participado. E some a tanto, os anos vividos com minhas paixões,
com meu trabalho, com meus estudos, com meus lazeres, prazeres e afazeres, com
meus charutos. Resumindo, com tudo aquilo que poderíamos chamar de
“amantes”.
A
palavra “amante”, ao menos no nosso idioma, não tem gênero específico.
Meu charuto me diz que isso proveio da inteligência latina. Amante se apresta a
todos os gêneros e para ser identificado requer um artigo definido ou não, um
pronome possessivo, um adjetivo gentílico ou, sei lá, de algo que o transforme
em gente ou em objeto de prazer.
Estou
pleno de amantes. Meus filhos, minha mulher, meus teres e haveres, minhas
ex-mulheres, meus escritos, meus 14 netos, meu trabalho, meus charutos, meus
amigos, o mundo que me cerca.
Nada
de pílulas coloridas. Nem divas, nem divãs.
Feliz, vejo com alegria retratadas no espelho, as marcas da existência. E, todas as manhãs, cuido de agradecer ao Divino Mestre, tamanha generosidade por me haver dado tantos anos e tantos amantes na vida.
119.
ITAPEMA
Itapema
é um desses lugares a beira-mar nos quais, parece, o tempo haver parado. Este
pequeno ponto, encravado no fundo da Bahia
de Todos os Santos, de mar lamento, desfruta de apaziguadoras ausências
humanas. Ideal para se desfrutar um puro. Itapema a rigor, não é um
lugar, é um paraíso desnudo de vaidades. Não faz parte do circuito das
badaladas praias baianas. Carrões, grifes, cardápios afrancesados, ar
condicionado, comodidades, asfalto e quejandos, são ausentes. Caminha-se por
sobre o capim nativo. Casas simples, erguidas ao tempo de uma extinta usina de
extração de óleo de dendê, compõem o cenário-presépio.
Ora
vive da pesca. A pele curtida dos nativos revela sangue de raízes sertanejas
que, no tempo do tempo do andar-se em mulas, fugia da seca das bandas
nordestinas, e vinha em busca de trabalho, na antiga usina.
As
novas gerações encontraram, no mar, a sobrevivëncia.
Em
Itapema, som só se for nos alto-falantes de um ou outro carro visitante. Não
mais do que meia dúzia de bares-empórios forma a rede de abastecimento local.
Distando
apenas uns 60 quilômetros de São Gonçalo dos Campos, costumo ir para lá, em
sábados estivais. Sento-me à mesa de madeira de um azul que já se foi, no bar
do Renato. Somos velhos conhecidos.
Que
temos hoje, Renato? A
resposta é inevitável. O de sempre.
Tal
“sempre” é sempre o que espero. Frutos do mar em variadas formas.
E
quais são as novidades, Renato?
Ele, prontamente,
dispara. As mesmas!
Essas
“mesmas” são tudo o quanto já descrevi.
Acendo
meu Alonso Robusto.
Trouxe
um para mim? Indaga Renato.
De
imediato o acudo. Toma o charuto, entre as mãos, qual relíquia.
Nada
conhece da ARTE de fumar. Mas conhece – e como – o PRAZER de faze-lo. Acende
o puro ofertado e deixa-se ali comigo ficar, se esquecendo dos outros
clientes. Pouquíssimos.
Quem
busca agitos, vai para a praia de Cabuçu, uns 20 quilômetros além. Nessa deságuam
as gentes de Feira de Santana, para disputar espaço nas barracas sobre as
areias onde o mar desmaia.
Em
Itapema podemos nos dar ao luxo de eleger um ponto de solidão. Não se queira scotch.
Contentemo-nos com uma cerveja. Não se queira um coq au vin.
Contentemo-nos com uma mariscada ou uma apimentada moqueca. Copos, pratos e
talheres com os quais, certamente, não estamos habituados. Mas que, na
companhia de nosso charuto que a ninguém perturba, nos fazem desfrutar delícias
esquecidas na cidade grande.
E,
na hora de voltar, camarões baratos e fresquíssimos para, em casa, matarmos
saudades.
118.
PUROS MASCADOS
Dia
desses, me flagrei mascando a ponta do meu puro. Havendo aprendido que a
forma “correta”
é se “fumar seco” ou seja, impedindo que a umidade dos lábios se
transponha ao charuto, fiquei surpreso comigo mesmo. Estava eu fumando meu
charuto à maneira muito apreciada por norte-americanos. Houvera sentado à mesa
de um bar, ouvindo um samba de breque num desses feriados da vida, e o puro já
se consumira em boa parte, com o bico babado e prensado pelos dentes.
Que
coisa horrível! Pensei. Estou
contrariando tudo quanto me ensinaram, matutei.
Mentalmente,
então, acessei uma de minhas antigas crônicas “Prazeres Sentidos” na qual
falara das portas de entrada do prazer.
Ora
bolas! Se, ter prazer é dar satisfação aos sentidos, nada de errado.
Eu
estava com meus sentidos plenamente satisfeitos mascando a ponta do meu puro.
Deixei de lado as autopunições e continuei desfrutando aquele especial
momento.
A
vida é assim. Ai de nós querermos ser censores da humanidade. As regras estatuídas
visam a convivência social. Mas, se tratando da nossa vivência pessoal, cada
qual deve ser livre para procurar a melhor forma de estar em paz consigo mesmo.
Neste aspecto, sou um tanto quanto anarquista.
Por
isso agora, quando vejo alguém imergindo a ponta do seu charuto num cálice de
licor; alguém tentando captar o aroma de um puro sem o ter retirado da
sua bolsa de celofane ou, mais, quando alguém espreme o charuto, junto ao
ouvido, em busca de alguns estalidos, ou ainda, quando alguém em vez de usar a
guilhotina, corta a ponta do charuto com as unhas ou com os dentes, e sei mais lá
o que, me dou conta que todos estão certos.
Errado
estava eu quando houvera me censurado por haver mascado meu charuto.
117.
SINFÔNICA BELEZA
Percorrer-se
uma fábrica de charutos feitos ä mão como a nossa aqui de São Gonçalo dos
Campos nos faz retroceder no tempo. Modelo funcional de épocas pré-fordianas
os puros nascem, unitária e
pacientemente, do tato e do toque.
A
mim que por mais de 25 anos vivo em tal passado, os olhos já não se
surpreendem com a beleza da plasticidade do fabrico. É preciso que um
turista-visitante, dos muitos que aqui vêm, entre Oh!s e Ah!s, disparar o
flash de sua máquina fotográfica, para aperceber-me, encantado, dos encantos
nunca vistos pela maioria das pessoas. Ou é preciso que, acendendo meu charuto,
num dos recantos estratégicos da fábrica, deixe o olhar passear naquelas
dezenas e dezenas de mãos, espalmando fumos, escolhendo as capas, enrolando os bunches,
capeando os charutos, selecionando as cores, colocando os anéis, adornando as
caixas.
Uma
verdadeira orquestra de gestos, toques, apalpos sincronizados, carinhosamente
femininos e delicados.
O
puro em que navego em tais ocasiões,
não chegou a ganhar o mundo. Consumiu-se no próprio oceano de sinfônica
beleza onde nasceu. Permitiu-me também o privilegiado desfrute visual do
nascimento, vida e morte dos charutos e, de quebra, escrever mais uma crônica.
116.
MERCADOR DE PUROS
Nos
dias ditos úteis, ao cair da tarde, charuto em punho, encarando o desafio da
folha em branco ä minha frente, exercito a mente em busca de associar o
cotidiano aqui da província, com os puros e a arte e o prazer de fumá-los.
Assim
aos poucos, a par da felicidade de ora expressar meus sentimentos ou de ora
retratar minha vivência e a cidade onde (con)vivo, falo com intimidade fraterna
dos charutos, cujas cinzas e fumaças aprecio.
Hoje
não fugi ä regra. Vindo da fábrica onde recebemos visitantes que se
maravilharam com o artesanato charuteiro e aos quais falei um pouco de nossos puros,
usos e costumes, na regular hora do por do sol deste quase trópico, postei-me só,
a um bar do centro, vendo passar a negra gente da cidade.
São
Gonçalo dos Campos, terra dos Alonso Menendez e dos
Dona Flor, é uma cidade negra. Como a capa dos charutos Mata
Fina. Meu coração e minha mente a ela se acostumaram, como meu corpo e meu espírito,
aos charutos também se amoldaram. Escuros ou claros passam eles pela minha
vida, com os passantes, muitos negros e poucos brancos, que passam pelas ruas de
São Gonçalo.
E
como passageiro desta nave citadina, passeio por suas poucas ruas, com se convés
fossem, sem ser importunado ao fumar meus charutos. Privilégio cada vez mais
raro aos incomuns mortais que os apreciam. E que, com inegável prazer,
desfruto.
115.
HOMEM COMUM
Os papéis sociais desempenhados e esperados por parte do homem e da mulher, vêm sofrendo mutações a enorme velocidade. Anos atrás roupas multicoloridas eram exclusividades femininas. Mulheres não fumavam, isso era coisa de homens. E que tal, então, elas usarem calças “masculinas”? Chocava. Salões de beleza para homens? Mulheres sozinhas à noite? Homens com orelhas adornadas com pingentes? Beijos ardentes em público? É infindável o rosário de muitas contas de coisas impensáveis, papéis sociais que vêm sendo quebrados. Mesmo assim, muitos tabus persistem, fortemente arraigados, em qualquer cultura.
Certa
feita, enquanto à varanda de minha casa, desfrutava um Alonso Menendez Robusto,
assistia um documentário sobre dado país africano, no qual homens andam pelas
ruas de mãos dadas. Cáspita! exclamei comigo mesmo, baforando o puro.
Homens de mãos dadas? questionei-me, inserindo mentalmente tal performance no
papel masculino do nosso meio cultural.
Você
prezado leitor, já se imaginou, de mãos dadas com um amigo seu, andando pelas
ruas de sua cidade? Tirante outras gaiatices, ridículo seria o mínimo que Você
ouviria.
Agora,
como simples exercício, mantenha o cenário e mude o gesto. Ponha seu braço
direito sobre o ombro de seu amigo e continue andando. Ninguém irá perceber
nada de invulgar. A cena se insere nos padrões comportamentais latinos. Quer
dizer então que abraçados pode, e de mãos dadas não pode?
Com
nossos charutos as coisas correm mais ou menos assim. Uma mulher degustando um puro,
por incomum, vira notícia, provoca comentários. Um homem comum fumando
charutos desperta atenções. Você já percebeu que, de forma quase invariável,
todos os artigos sobre o hábito de fumar puros, estão sempre citando os
mesmos personagens? Freud, Groucho Marx, Churchill, para falar de outros,
Vilalobos, Getúlio, Tom Jobim, para falar dos nossos?
Carácolis!
Há coisas para as quais o mundo é cego. Meu cego amor pelos puros, que
dado ao estereótipo cultural, espelha grandiosidades que não possuo, me faz
recordar um expressivo hai-kai: “Amor cego. – Como um morcego. –
Comum”.
114.
A (IM)PERFEIÇÃO
Confesso
que, no melhor estilo baiano, “retei”. Mesmo sabendo a causa provável do
desalinho da queima do meu charuto ficara “retado da vida”. Afinal, o
escolhera com carinho, entre muitos. Não fora fruto de uma eleição ao acaso.
Abrira minha caixa de Pandora, plena de puros de todas as nuances,
bitolas e formatos e, os apalpando para desapertá-los do seu sono, escolhera um
que se me parecera o melhor dentre os melhores.
Ledo
engano. Após as primeiras baforadas, a queima se revelara irregular. Bom de
aroma e sabor, mas ardendo numa só banda. Na outra, a capa como se fosse
incombustível, amparava a cinza, formando uma indesejável e pontiaguda lança.
Com
meus botões lastimei isso viesse a acontecer, justo quando me preparara para
desfrutar um puro em toda a sua plenitude.
Afinal,
ainda que não me considere um expert, é inegável que sou um iniciado
na arte e no prazer de fumar. E o sendo, exijo que meu charuto, além das
satisfações gustativa e olfativa, me conceda também prazeres visuais. Todo o
apreciador de puros é um voyeur. E aquele charuto macio, gostoso
e perfumado, com sua queima irregular, me negava a plenitude prazerosa.
Vivendo
as lides artesanais charuteiras há muitos anos sei serem duas as causas
principais de uma queima torta. Uma delas, uma capa mal “curada”,
descartei de pronto. Sobrara a segunda: irregularidade no enchimento do filler.
Traduzindo em miúdos: a charuteira não compactara bem os fumos da
“torcida”. No pé do charuto deixara vácuos, uma
inconsistência que ocasiona, por haver mais ar, uma acelerada combustão
unilateral.
De
pronto bati a cinza e recortei a parte lanceada da capa que não
queimara. “Acertei” a cinza que restara, aspirei profundamente o puro,
reassumindo ele a queima “redonda”. A parte mal formada se esvaira. Ficara
agora uma consistente estrutura a qual, se transformando em compacta cinza
regular, me fizera esquecer o aborrecimento inicial.
Charutos
têm dessas coisas. São umas espécies de gentes com a quais convivemos e que,
vez ou outra, nos surpreendem. Ora superando nossas expectativas, ora as
traindo. Mas que nós perfeccionistas e compreensivo-humano-fumadores
entendemos. Afinal, a perfeição não costuma estar em todos os lugares ou em
todos os momentos. Compreendemos que aquilo que nasce das mãos do homem poderá
ser imperfeito. Como acontece com nossos melhores charutos. De vez em quando.
113.
ÁRVORE DE NATAL
A laica árvore de natal e o religioso presépio, um e/ou o outro, se fazem presentes, em todos os lugares, nesta época do ano.
Tendo
um raciocínio cartesiano, sem ser engenheiro, costumo ao se iniciar, em minha
casa, a operação de montagem dos mesmos, classificar/separar os enfeites,
adornos, bolas e pingentes, por suas cores/tamanhos, de forma a permitir um
ordenamento lógico ao utiliza-los.
Agora,
tente fazer isso contando com a ajuda das crianças.
Mergulham
naquele mundo multicolorido, pegando peças ao acaso e lá vão elas pendurando
e dispondo as peças sem maiores critérios.
Foi
o que aconteceu comigo neste ano, quando meus dois guris de 3 e 5 anos
resolveram “ajudar-me”.
Dado
às mãos ocupadas, com meu charuto Robusto preso aos dentes, reclamei,
resmungando incompreensíveis palavras. Nada feito. Às bolas coloridas os
meninos misturavam lacinhos, contas, penduricalhos vários, lâmpadas que piscam
e mais sei lá o que. Acode aqui, acode lá, atende a um, atende ao outro e nem
sequer me davam tempo de tirar o puro da boca.
As
cinzas despencaram.
Papai
Hugo – indagou o mais
velho – por que Você não pendura também uns charutos na árvore?
Fiz-lhe
a vontade. Corri a meu estoque de rezagos, tomei algumas unidades,
adornei-as com um fitilho colorido e lá estão eles na Árvore de Natal deste
2003.
Única!
Exclusiva! Diferente!
E
a cada charuto pendurado pensava que, se eles existissem ao tempo do nascimento
do Salvador, os Magos por certo que, além de esplendor do ouro e do aromático
incenso e da doce mirra, também ofertariam a mágica fumaça dos puros.
E
a cada charuto pendurado pensava também em todos quantos que, como Você,
apreciam o exclusivo mundo dos charutos.
112.
SOU DO PC
Não
tenho, e nunca tive, nenhum temor em afirmar alto e bom som, pertencer ao PC há
muitos e muitos anos. A lembrança vem a propósito de os muros de minha cidade
já estarem, todos, pichados com pré-candidaturas à vereança.
Recolhi
algumas preciosidades. Codinomes bizarros, pretensamente populares, Kiko,
Dedega, Escurinho, Fal Bulê, Bire, Argolinha, Gordo do Carrapato, Gil da Jauá
se superpõem a slogans de campanha nada originais,
como “Juventude e Competência”, “Unidos seremos felizes”, “A
comunidade em primeiro lugar”, “Uma nova esperança”, “Meu amigo, meu
candidato”, e por aí vai a coisa.
Nenhum
candidato assume explicitamente um partido. Mesmo que seja um destes que estão
na crista da onda. E, muito menos, ninguém – tenho certeza – pertence ao
meu partido.
Acostumado
que fui à quase clandestinidade imposta por imposições legais as quais, por
incrível que pareça, hoje são mais fortes ainda, apesar das propaladas
liberdades democráticas, já não dou mais bola para o que pensam de mim. Sou
do PC e continuarei fiel ao mesmo enquanto viva.
Agremiação
das minorias, o PC reúne em torno de si intelectuais, artistas,
empresários, profissionais liberais, gente que pensa e que não se envergonha de tornar pública sua preferência, malgrado
olhares enviesados de interlocutores e circunstantes.
Fazer
parte dos quadros do PC é privilégio de poucos. Para os que entendem e
defendem o direito das liberdades individuais. Para os que assumem uma postura
independente das opiniões alheias. Para os que, malgrado o terrorismo oficial,
se mantém fiéis aos seus gostos e princípios.
Sou
do PC.
111.
SAUDADES
À beira da mesa, um dos meus pontos de apoio prediletos, deixara meu charuto incandescendo. A fumaça formava sinuelos graciosos ao final de um vertical e retilíneo fio. Refletia tons azuis-grafitados até se transformar em nada.
Deixei-me
ficar por largo tempo, em silêncio de oração, a apreciar as névoas, algumas
até que, em vez de partirem da ponta ígnea, após as baforadas refluíam
densas pela outra ponta. E, densas por carregarem a umidade do fumar, se
espalhavam preguiçosamente contra o corpo do puro, por sobre a mesa.
Rastejando, recusavam-se a subir.
A
cor da toalha, um verde acostumado às cartas do baralho, combinava à perfeição,
com o castanho-colorado do meu charuto-companheiro.
A
crescente parte que se transformava em cinza de um ébano argentino, teimava em
se manter unida ao corpo.
O
“anel da queima”, negro e perfeitamente circular como devem ser os dos bons
tabacos, atestava a excelente performance daquele rolinho de felicidade.
Com
as narinas tentava capturar, farejando, o aroma residual da fumaça mágica. E
depois o comparava com aquela que eu, em rápido estágio, aprisionara na boca
inebriando-a, compelira contra o palato e após, sem pressa alguma, deixara
ganhar mundo pelas vias nasais.
O
tempo – o que é o tempo? – passara a ser medido por aquela ampulheta de
fumo, nascida de carinhosas mãos baianas.
Sabia
que outros instantes prazerosos se renovariam.
A
partir de então o sabor do puro fora se encorpando. Era chegada a hora
dele se desnudar no seu esplendor.
Nada
em volta. Apenas a mesa, o tato. A toalha, o gosto. A cinza, o olfato. A fumaça,
as cores.
O
mundo sumira ao meu redor e assim foi até o final.
Um
magnífico Dona Flor Double Corona Claro.
110.
SÁBADO COMPLETO
Por
que hoje é sábado, escrevo aos amigos, medito em paz, baforo meu puro.
Por
que hoje é sábado, vislumbro o domingo, a paz da família, vou jogar cartas.
Por
que hoje é sábado, arrumo papéis, limpo o outlook, viro poeta.
Por
que hoje é sábado, as horas não passam, meus puros m’esperam, visto
bermudas.
Por
que hoje é sábado, limpo gavetas, relaxo e esqueço, falo bobagens.
Por
que hoje é sábado, elogio a mulher, festejo os meninos, exageros à mesa.
Por
que hoje é sábado, abasteço meu carro, ouço fofocas, conto piadas.
Por
que hoje é sábado, corto o cabelo, calço sandálias, vou ao boteco.
Por
que hoje é sábado, conto vantagens, regalo charutos, penso em viagens.
E por que hoje é sábado, na sua magia, no meu cantinho, ergo a taça, receba a Fumaça, de quem lhe abraça, com muito carinho.
109.
ÓCIO PRAZEROSO
Nos
momentos de ócio familiar, valho-me dos meus charutos. Agora mesmo, num avançar
de tarde de feriado, enquanto aguardo os barulhos de pratos e talheres
anunciando a comida, e enquanto as crianças, ausentes em passeio à praça,
concedem momentos de silêncio, fui visitar uma caixa dos Alonso Menendez
Especiales, guardada a sete chaves, há não sei quanto tempo.
Visita
invasiva-seletiva.
Com
um carinho de primeiras núpcias desnudo a caixa. Com a paciência dos
iniciados, rompo o selo. Destravo o fecho. Abro
a tampa. Enamoro-me.
Delicadamente
apalpo os puros, com a emoção de quem toca algo que nunca o fora.
Com
dedos ágeis como os de um pianista, teclo os charutos em busca de sua maciez e,
inclinando a caixa em direção à luz, com o olhar passeio sobre as cores
daquela esplendida irmandade.
Invadida
a privacidade dos puros, fecho a caixa. Fecho os olhos.
Qual
escolherei? – me indago. O “melhor” ou o “pior”?
Como
assim? – Você há de se perguntar.
Respondo-lhe
que é assim mesmo. Os fumadores de puros, em geral sempre elegem o
charuto que lhe pareça o melhor dentre todos. E os vão consumindo na escala
qualitativa decrescente percebida. De forma tal que os dois ou três últimos
charutos da caixa, soem ser qualitativamente distintos dos primeiros escolhidos
e fumados.
Ainda
com os olhos fechados decido pela eleição inversa. Resolvo degustar o charuto
que se me pareceu o mais “duro”. Reabro a caixa em busca do “pior”.
Retiro a bolsa protetora de celofane, tornando a apalpá-lo de cabo a rabo.
Aspiro seu aroma-mel. Faço da mão balança sentindo-lhe o peso. Anos de
empunhar charutos me deixam reconhecer que a “dureza” não decorria de
excesso de tabaco. Apenas um grau de umidade, levemente reduzido. Um charuto
perfeitamente fumável.
Dou-lhe
“candela”. Aspiração e combustão magníficas. Torno a fechar a caixa com
seus segredos, na certeza de que os próximos puros, também estarão
excepcionais.
108. IN MEMORIAM
Com
a invejável idade de noventa e cinco anos deixara de fumar seus charutos.
Recomendações médicas. Justo ele, médico e catedrático, por anos a fio, da
Escola de Medicina da Bahia, fora privado do prazer que o acompanhara por mais
de setenta anos. Por vinte, fora eu o medianeiro de seus charutos. Ao telefone,
religiosa-mensalmente, falava comigo tratando-me por Hugo Adão. Sempre brincava
com meu nome de batismo e, de forma invariável, se declarava – palavras suas
– um fã dos meus escritos.
O cliente perfeito, com o
passar do tempo, se transformara no amigo mais que perfeito. Não satisfeito em
adquirir charutos para seu consumo pessoal, volta e meia, me encomendava uns,
“baratinhos” segundo ele, para presentear o capataz de sua fazenda.
Lúcido a mais não poder, me
dizia ter abandonado os puros, posto fora “obsequiado com os mimos da
senilidade” e me telefonava dizendo das saudades sentidas do companheiro que
tivera que deixar, ao longo da jornada. Um dia me surpreendeu. Em vez de
telefonar, como sempre o fazia, me mandou um e-mail. Sua voz, já cansada,
ficava gravada no seu escrito e até hoje ecoa em meus ouvidos.
Numa noite soteropolitana de
junho de 2003, aos 96 anos, dormiu. E dormindo teve o descanso dos justos.
Partiu sem dizer adeus. Levou para outras paragens um exemplo de vida longa,
profícua e frutífera. E por certo, lá em cima, aspira o aroma das baforadas
do charuto que agora fumo, cheio de saudades. A esta altura já deve ser membro
honorário da confraria celestial charuteira.
Dr. Alicio Peltier de Queiroz, esteja onde estiver, leia-me e creia-me seu eterno amigo.
107. CARNAVAL E CHARUTOS
Pronto! Acabaram com meus momentos de sossego na companhia dos meus e dos seus charutos. Em meses de verão na Bahia, não há recanto por mais recôndito que seja, que fuja à regra da carnavalização musical. Esteja Você em Itacaré –pleno mar-, em Nagé, às margens do Rio Paraguaçu, em Itapema, ao fundo da Bahia de Todos os Charutos, esteja em Lençóis, na Chapada Diamantina, esteja Você ainda no Raso da Catarina, em Morro de São Paulo, em Brumado, onde mais seja.
Domingo,
fevereiro de sol. Missa e missão cumpridas, farnéis apostos, escolho quatro
Pirâmides Dona Flor, reúno as tralhas da meninada, mãos ao volante e lá
vamos nós, em busca de um destes paraísos baianos, meus velhos conhecidos.
Sei
de antemão que, no destino qualquer seja, encontrarei um carro de som
amplificado, inundando com exagerados decibéis a tudo e a todos. E que todos,
em improvisadas barracas cervejeiras, parecem felizes. O baiano é um povo
musical por excelência.
Em
lá chegando, munindo-me de paciência e acendendo meu primeiro charuto da
jornada, socorro-me de uma mesa de bar, ao acaso, à sombra de frondosa
gameleira.
Desligo
os orgânicos fones auriculares, deixando o som carnavalesco como pano de fundo
d’outros tempos mais joviais e, charuto em punho, olhos no papel, volto a
escrever.
Carnaval
e charuto têm, em comum, além da inicial, algo mais que agora tento desvendar.
Na paganidade de suas respectivas origens talvez resida o elo perdido. Um, que
proveio das festas romanas inundadas de comidas, bebidas, alegrias e seus
deuses; outro oriundo da sossegada vida indígena americana, seus rituais, seus
pajés e seus tupãs.
E
agora, desfrutando o doce aroma de meu charuto – que me remete à introspecção
– e o teimoso-agitador-invasor som eletrizado, sob um calor de trópicos, me
inspiro e mais aprendo.
O
que vale não é o estar. É o ser. E, sendo o que sou, não importa pois onde
estou. Mesmo em meio a um suposto sossego perdido, o reencontro dentro de mim.
A
mão, com o puro, discretamente se agita ao compasso do estridente som.
Os olhos, de quando em vez, se permitem ao luxo de desfrutar o visual ao redor.
A cor da tez predominante informa que estou nas bandas do Recôncavo Baiano.
Cabelos rastafari, corpos em movimento, mesas inundadas de cervejas, a capoeira,
o samba de roda, a baiana do acarajé se misturam a deuses romanos, tupãs
americanos, alegria, comidas, cheiros, agitos e – por que não? – a sossegos
interiores disfarçados.
No
fundo, todos somos um mar de tranqüilidade. Assim o é, tanto no ingresso,
quanto na saída, dessa viagem chamada vida. Importa saber entender, neste
interstício entre entrada e saída, que viajando na mesma nave-terra, todos têm
direitos a tudo. Seja a agitadora paganidade carnavalesca a qual incita prazeres
corporais, seja a apaziguadora paganidade dos meus charutos, que remetem a
reflexões existenciais.
Que
a Alegria do Carnaval e a Paz dos Charutos, estejam sempre com Você.
Ex-corde
106. EPÍTETOS
O
padrão construtivo medieval, que visava a autodefesa dos burgos, casas coladas
umas às outras em ruas estreitas, deixou via cultura portuguesa, suas marcas
nas velhas cidades brasileiras.
Aqui
na provinciadesãogonçalodoscamposdabahia, não se fugiu à regra. Os
quarteirões são mares de telhados e às janelas das casas geminadas, habitadas
em sua grande maioria por pessoas idosas, homens e mulheres passam a jornada a
espreitar a vida alheia.
Esquinas
poucas e bares muitos são também pontos de convergência daqueles que, pouco
ou nada tendo a fazer, se ocupam em olhar o nada e a todos.
E
quando, com meu charuto, imito o hábito do cotidiano citadino, não se passam
mais que poucos minutos para alguém, e sempre um amigo mais idoso, me pedir um
“daqueles charutinhos especiais que os cubanos fazem”.
Cubanos,
no caso, se refere à família Menendez, que para cá imigrou no final dos anos
setenta, para dar partida à fábrica de charutos Menendez & Amerino. A
qual, com o passar do tempo e das circunstâncias, se transformou na maior fábrica
brasileira de puros.
E,
ante o irrecusável pedido do interlocutor, prontamente o acorro. Passo a
desfrutar, então, de mais um companheiro, além do meu charuto, na enfumaçada
rodada do nada fazer.
É
confortável e prazeroso fumarem-se puros, em público, aqui em São Gonçalo.
Sendo eles parte integrante da cultura local, ninguém reclama. Ninguém
contorce o nariz, naquela caretice, literalmente falando, velha conhecida dos
amantes da arte e do prazer de fumar.
Ao
contrário. Amigavelmente se aproximam, tentando aspirar a névoa das baforadas,
evocando avoengas recordações.
E
como cidade pequena que é, todos sabendo de tudo o que todos fazem, aos nomes
batismais acrescem um epíteto identificador da respectiva atividade de cada um.
Assim é que temos um Roque da Farmácia, uma Sônia do Bazar, um Beto do Empório,
um Vavá do Capim, um Deraldo do Leite, um Lino da Pousada, e por aí vai.
Eu, acabei me transformando no Hugo dos Charutos.
105. CHARUTO AO LUAR
Tão
bom quanto beber champanha assistindo o pôr do sol – se ainda não o fez,
experimente – é desfrutar um charuto à luz da lua cheia.
A
gente fica olhando, olhando aquela bola brilhante, lá em cima, acompanhando a
fumaça do charuto que ascende, em busca de São Jorge cavalgando seu dragão
fumegante.
O fumo
evolado invade as brancas réstias de luz, formando um etéreo passadiço, sobre
o qual caminha o pensamento.
E,
nesse pensar-andar deslizante, recosto-me ao espaldar da cadeira, aprumo o
tronco, empino o queixo e com olhar fixo no logo-ali infinito-celeste, baforo,
fulminando a lua.
No silêncio
e claridade reinantes, tudo ouço, tudo entendo, tudo vejo.
Transfiguro-me,
com o encanto da magia do charuto-companheiro, vendo a lua derramar-se em prata.
104.
AS PIRÂMIDES
Ao se falar em pirâmides não há quem, de pronto, não visualize a forma que conceitua o termo. Da base quadrada nascem triângulos inclinados, os quais ao se encontrarem no topo, acabam num ponto.
Os charutos piramidais Dona Flor se inspiraram nas seculares pirâmides e em muito a elas se assemelham. Quadrados no formato, com quinas arredondadas para permitir um suave rodilhar nos dedos, as laterais, no bico, se estreitam. Mas não se encontram. Uma tecnicamente correta abertura na ponta, dispensa o uso da guilhotina. As pirâmides D. Flor chegam até você de portas abertas para que possa desvendar seus mistérios e segredos. Os quais, a exemplo dos ícones egípcios, não são poucos.
Permita-se ao luxo de fazer uma viagem sem sair de sua casa.
Ao acender uma pirâmide Dona Flor, a queima regular, a combustão perfeita, a consistente cinza, associados ao excepcional sabor e característico aroma lhe transportarão, se sossego tiver, aos lugares onde moram seus melhores pensamentos.
Sensações indizíveis dos previsíveis prazeres de pisarmos no recôndito do nosso ser, lhe aguardam. Um misto do céu dos salmistas com o limbo de assexuados seres e - por que não? – do lugar onde, segundo dizem, no futuro encontraremos nossos melhores amigos.
Enquanto sua pirâmide arder, viverão